Nostalgia e Timidez

Abaixo, um pouco da história de alguém não tão importante quanto Luis Inácio Lula da Silva ou um "BBB", mas que mereceu uma mini entrevista:

Nas ruas, o que vale para atrair e garantir a fidelidade do cliente é a simpatia e a habilidade de fazer uma propaganda eficiente do produto. Chamar a atenção dos que passam e ficar conhecido por eles. Hermilson Matos, com 26 anos de idade e muitos fios brancos na cabeça, não é uma dessas figuras famosas. Sequer é conhecido pelo que faz. Não tem bordões. Fica o tempo todo conversando em voz baixa com outros colegas de trabalho. É quieto, tímido. Só fala o que lhe perguntam e de forma breve. Sua função é vender produtos que carregam um ar de nostalgia: cartuchos e consoles antigos de vídeo game.
Cartucho
Hermilson trabalha há sete anos como camelô em São Gonçalo e mora na mesma cidade com a mãe. Ele trabalha para outra pessoa, o “Marquinhos”, dono da barraca e dos produtos. Diferente da maioria dos camelôs da mesma rua que trabalham por conta própria. Antes de trabalhar como camelô ele era pedreiro. Confessou que gostaria de voltar ao seu antigo emprego porque é melhor trabalhar com carteira assinada, mas não agora. Alegou que problemas externos o impedem de voltar a trabalhar formalmente. Então ele se vira com o “quebra galho”, como chama a função de camelô.
Quando indagado sobre qual seria a profissão dos sonhos, ele parou por um momento e respondeu que nunca parou para pensar no que queria ser de verdade. Nunca imaginou fazer uma faculdade. Porém, pretende voltar o quanto antes aos estudos. Parou de estudar quando terminou a antiga oitava série e tem dois filhos. Um de cinco e outro com quatro anos de idade. Os dois estão na escola e moram com a mãe, que é separada de Hermilson. Este paga pensão às crianças e diz que o dinheiro que consegue como camelô serve apenas para ajudar a si mesmo e às crianças.
Hermilson disse que seu trabalho também o diverte. Passa a maior parte do tempo brincando com os jogos que vende, conhece todos eles e sabe da importância de cada um. Seja de um joguinho de futebol de dez anos atrás ou os cobiçados jogos da Zelda. Ele nega que exista um período do ano em que as vendas caiam consideravelmente. Para ele, o movimento é igual o ano todo, só aumenta um pouco no Natal e no início do mês.
Contou ainda que não tem problemas com a concorrência. Próximo a ele há mais três barracas com o mesmo produto, mas ele afirma que nunca houve conflitos e todos são amigos. Não existe uma estratégia de venda para competir.
Hermilson não soube responder o que as pessoas procuram mais ou se a barraca parou de vender por um período longo. Segundo ele as pessoas sempre procuram tudo e a barraca sempre vende bem.
Confessou que, por dia, a barraca vende aproximadamente R$300. Mas ele recebe por semana, independente do quanto vende. O dinheiro vai todo para o dono dos produtos, o “Marquinhos”. Este é dono apenas da barraca de Hermilson e aparece de vez em quando para fiscalizar o trabalho dele.
Enquanto rolava a conversa, duas crianças apareceram e deram uma olhada nos cartuchos antigos da Nintendo e da Master System. Por fim, um deles, aparentando ter uns 12 anos de idade, pergunta:
_ Qual video game que coloca essas fitas?
_ Esse aqui de cima _responde Heremilson, apontando para um equipamento antigo da Nintendo.
_ E é caro?
_ Não. É R$ 80.
E a criança se afasta da barraca como se tivesse descoberto um brinquedo espetacular e misterioso.

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